Expedição busca novas formas de diagnóstico da hanseníase em comunidade no Pará

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Visita à Vila do Prata (PA) tem a participação de pesquisadores internacionais e integra um estudo sobre imunodiagnóstico da hanseníase

Casos de hanseníase se tornaram cada vez menos comuns nos últimos 20 anos graças à evolução dos tratamentos. Agora, uma nova expedição à Vila do Santo Antônio do Prata, uma ex-colônia de hansenianos localizada no Pará, busca estudar novas formas para facilitar o diagnóstico da doença.

A equipe de pesquisa, liderada no Brasil pelo professor Marcelo Távora Mira, do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde (PPGCS) da PUCPR, atendeu mais de 500 pessoas entre os dias 21 e 26 de março, como parte do estudo. Com o consentimento de cada paciente, foram realizados testes rápidos e laboratoriais na comunidade. “Os dois exames têm a mesma proposta: oferecer apoio ao médico para decidir se o paciente tem hanseníase ou não”, explica Mira.

Participaram também da expedição os médicos dermatologistas e hansenólogos Danilo Barros e Sérgio Aguilera, os residentes de dermatologia Luisa Polo Silveira e Breno Kliemann, as estudantes de doutorado do PPGCS Antoniella de Aguiar e Andressa Mayra dos Santos; o professor Jeffrey Hallam da Kent State University (EUA); a pesquisadora holandesa e investigadora principal do estudo, Annemieke Geluk, do Leiden University Medical Center, da Leiden University (Holanda) e sua estudante Louise Pierneff, além de pesquisadores e uma equipe de enfermeiras da Universidade Federal do Pará (UFPA).

20 anos dedicados ao estudo

A expedição dá continuidade a uma ampla iniciativa de pesquisa junto à comunidade da vila do Prata, conduzida pelo laboratório do prof. Mira, e que já produziu estudos importantes na área de suscetibilidade genética à hanseníase. Mais recentemente, o grupo conduziu um estudo que analisou a transmissão de cepas de hanseníase resistentes com publicação na Clinical Infectious Diseases, uma das revistas científicas de maior impacto no mundo em doenças infecciosas. Na ocasião, os pesquisadores investigaram o status de resistência do Mycobacterium leprae – agente causador da hanseníase – ao tratamento padrão no mundo todo (chamado “poliquimioterapia”, ou PQT, uma combinação de três medicamentos) e distribuído gratuitamente pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Já são mais de 20 anos de pesquisa, incluindo outras expedições à comunidade com equipes de médicos e cientistas.

Na década de 1920, a vila do Prata tornou-se um local para o isolamento compulsório de pacientes com hanseníase diagnosticados nos estados do Norte e Nordeste do Brasil. O isolamento deixou de ser obrigatório em 1962, mas o estigma social associado à hanseníase ainda é presente, tornando rara a saída de indivíduos portadores e a entrada de indivíduos não portadores da doença para a comunidade. Como resultado, a Vila da Prata permanece relativamente isolada e, apesar dos esforços para o controle da doença, a hanseníase ainda é altamente presente em toda a comunidade.

No presente estudo, baseado na Universidade holandesa de Leiden, financiado pela Leprosy Research Initiative e liderado globalmente pela Dra. Anemmieke Geluk, os pesquisadores estão buscando validar testes de diagnóstico imunológico da hanseníase, desenvolvidos pelos holandeses, e que podem facilitar muito a detecção de indivíduos afetados. “O grande diferencial dos testes é que são baratos e simples de realizar, podendo serem aplicados mesmo no campo, em situações de baixo acesso à tecnologia de um laboratório”, diz Mira. O estudo ainda será conduzido pelos próximos dois anos; ao final, a expectativa é de ter os testes validados e prontos para serem oferecidos nos serviços de saúde pública do Brasil e de outros países ainda endêmicos para a doença.

Pioneirismo

A pesquisa é pioneira na área: o diagnóstico da hanseníase ainda é essencialmente clínico e muitas vezes difícil, exigindo alto grau de treinamento das equipes médicas que normalmente não se encontra nos serviços de atenção primária à saúde. Portanto, testes de auxílio diagnóstico rápidos e sensíveis podem auxiliar na detecção rápida de novos casos, reduzindo a chance da ocorrência de danos neurais permanentes como com frequência ocorrem em pacientes diagnosticados e tratados tardiamente; além disso, os testes podem facilitar o desenho de ações de prevenção da doença a nível de saúde pública.

Finalmente, a expedição coincide com uma retomada da pesquisa em doenças infecciosas na PUCPR: “com a pandemia de Covid-19, a hanseníase e várias outras doenças infecciosas ficaram mais negligenciadas, ou seja, é muito importante voltar as pesquisas e trabalhos nesta área”, conclui Mira.

Fonte: PUCPR

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