Conheça o Dr. Aguinaldo Gonçalves, conselheiro da AAL que há mais de 50 anos atua no combate à hanseníase

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 Especialista em hansenologia e doutor em Ciências Biológicas pela USP, o médico é membro do conselho consultivo da Aliança contra Hanseníase

Das mais de cinco décadas de atuação no campo da medicina, o mesmo período foi de entrega absoluta à área da hansenologia. As trajetórias profissional e pessoal do médico Aguinaldo Gonçalves (71) se misturam. Muito de suas experiências de vida estabelecem relação direta com a escolha que fez assim que teve o primeiro contato com a hanseníase, ainda como estudante de medicina na Unesp (Universidade Estadual Paulista). 

Aguinaldo iniciou a carreira na década de 1970 trabalhando no Hospital Lauro de Souza Lima, em Bauru, São Paulo, centro de referência para o tratamento da hanseníase na América Latina e países de língua portuguesa. Ele lembra que, na época, estava sendo extinta a política de segregação de pessoas acometidas pela hanseníase no Brasil. O problema é que isso ocorria somente no papel. Os doentes ainda estavam longe de abandonar a precariedade da situação em que viviam. 

O interesse e a preocupação com a gravidade da situação fizeram com que ele passasse a dedicar a carreira para entendimento e auxílio do tratamento da doença, ainda tão estigmatizada no Brasil e no mundo. A hanseníase (conhecida no passado como lepra), está bem longe de ser uma enfermidade superada. O Brasil é apontado, segundo dados oficiais, como o segundo país com o maior número de casos de hanseníase no mundo, ficando atrás apenas da Índia, porém, Aguinaldo Gonçalves fornece uma importante informação:

“A Índia tem quase dois bilhões de habitantes, enquanto o Brasil soma mais de 220 milhões, o que significa, portanto que, em termos relativos, o Brasil é o país com os piores indicadores do mundo”.

Só entre 2010 e 2019, foram mais de 300 mil novos casos registrados no país, sendo que mais de 20 mil deles já estavam no grau mais incapacitante da doença, de acordo com o Ministério da Saúde. 

Além disso, apesar de ser o país com o maior número de casos de hanseníase por habitantes no mundo, o Brasil não produz os medicamentos internamente e depende de doação do laboratório Novartis, que produz os três antibióticos que compõe a poliquimioterapia (tratamento para a hanseníase).

A Novartis custeia para o mundo cerca de 200 mil novos tratamentos todos os anos. A distribuição do medicamento é feita pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Com a crise global intensificada pela Covid-19 e o caos na malha aérea os medicamentos para tratamento da doença ficaram em falta em 2020.

A carreira de Aguinaldo Gonçalves

Desde sua entrada na graduação em Medicina e o trabalho iniciado no Hospital Lauro de Souza Lima, Dr. Agnaldo construiu uma respeitada carreira. Na área acadêmica, foram quatro especializações (Medicina do Trabalho, Saúde Pública, Dermatologia e Hansenologia), além de Mestrado e Doutorado em Ciências Biológicas e do pós-doutorado em Ciências da Saúde pela Universidade de São Paulo (USP). Ele também foi bolsista da Organização Mundial da Saúde e do CNPq. Foi professor na Unicamp e na Pontifícia Universidade. Católica de Campinas , contribuindo para a formação de grandes especialistas em hansenologia, incluindo a própria fundadora da AAL, Dra. Laila de Laguiche. 

Na trajetória profissional, Dr. Aguinaldo acumula contribuições em importantes instituições. Ele lembra que o Brasil teve a chance de figurar em uma condição bem diferente da atual no cenário da Hanseníase a partir das décadas de 1980 e 1990, quando o país contava com a Divisão Nacional de Dermatologia Sanitária, que foi o órgão máximo de controle da hanseníase na nação. Aguinaldo foi Diretor da Divisão pelo período de cinco anos. O Ministro da Saúde na época era Waldyr Arcoverde, que tinha sido seu aluno na Faculdade de Saúde Pública da USP.

“Profissionais e professores sérios, comprometidos e atuantes no controle da doença, trabalhavam para contribuir com o controle da hanseníase no país”, diz o médico. Na década de 1990, a Divisão Nacional foi extinta e atualmente está dentro do departamento de doenças crônicas do Ministério da Saúde. 

 Quando foi convidado a servir à Organização Pan-Americana da Saúde em assessorias especializadas de curta duração, Aguinaldo passou a ter uma visão mais internacional da saúde. Com pouco mais de 30 anos de idade, se viu prestando serviços médicos em diferentes países. Foi nesse período, também, que ele teve contato com realidades bastante problemáticas da doença a nível global.

“Vi extremos de condições de vida de pacientes que me lembravam as ficções bíblicas. E o mais difícil é saber que hoje, mais de 40 anos depois, pouco mudou neste cenário. No mundo, foram mais de 200 mil novos diagnósticos só em 2019 e, no Brasil, cerca de 30 mil novos casos no mesmo ano. 

Diagnóstico

O médico lembra que – em razão do diagnóstico ser essencialmente clínico, feito por meio de exames que identifiquem lesões e áreas do corpo com alterações de sensibilidade, força e movimentação – quanto mais cedo se inicia o tratamento, menores são as chances de sequelas, como a perda funcional nos membros, amputações e outras limitações físicas que se impõe às pessoas em estágios mais avançados da doença. 

Passei a vida defendendo o diagnóstico precoce, mas isso de nada adianta se não existir a formulação e o cumprimento de políticas públicas eficientes para o tratamento e controle da doença, diz o médico.

“Enquanto a saúde for vista como oportunidade de lucro, ainda estaremos muito longe de oferecer condições de vida digna a todas as pessoas”, conclui Gonçalves, que atualmente é professor na Faculdade de Medicina da PUC Campinas e membro da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa. 

Como conselheiro da Aliança contra Hanseníase, Dr. Aguinaldo Gonçalves integra o grupo que define o planejamento estratégico, monitora a execução de projetos e demais atividades. 

Para saber mais sobre a estrutura de governança da AAL a extensa caminhada profissional deste hansenólogo, clique aqui

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